Quem estiver interessado em papo de mulher fique por aqui então, pois o papo é beeem longo.
Semana passada falei aqui mesmo que estava fazendo uns exames e coisa e tal. Pois bem, vou falar um pouco da experiência que tive, de uma coisa simples que já havia feito no passado, mas que foi horrível desta vez.
Veja como é a saga de uma usuária do sistema público de saúde na Austrália. Para mim, não tem muita coisa melhor do que o SUS no Brasil.
Em setembro, isso em setembro, eu fui ao clínico geral para conseguir prescrição de anticoncepcional, pois aqui você só compra este tipo de coisa se tiver receita. Aproveitando que já estava por lá, pedi para ela fazer meu papanicolau (ou preventivo). Aqui qualquer clínico geral faz o papanicolau. Não examina nada, mas pelo menos faz a coleta do material, que já algo bem importante. Um detalhe, o papanicolau aqui é para ser feito de dois em dois anos. Eu sempre fiz de ano em ano e consegui fazer o exame, pois acho que era minha "primeira vez" fazendo esse exame nas terras australianas.
Uma semana depois a médica me liga. Todo mundo odeia este tipo de ligação do consultório, que diz assim "a doutora precisa te ver". Lá fui eu, imaginando o que esperar. Falando com a doutora, ela me disse que o resultado do preventivo mostrou alterações que sugeriam NIC II ou NIC III (resumindo, displasias ou alterações de graus diferentes). Ela não soube me explicar nada mais e disse para procurar um ginecologista.
No outro dia mesmo fui no hospital do meu bairro, para marcar a colposcopia, para averiguar o que anda acontecendo por aquelas bandas. Fui atendida por um ser completamente desanimado, que não conseguiu ler meus dados na carta de referência e pediu para eu escrever todas minhas informações de novo. Depois me disse que era para voltar para casa e esperar pela carta do hospital, indicando o dia do exame.
Recebi a carta uma semana depois, informando que o exame foi marcado para 18 de novembro. Isso mesmo, esperei dois meses para conseguir fazer o exame, que a clínica geral havia classificado como urgente.
Na última quarta-feira fui lá fazer o exame. Já havia feito uma vez no Brasil e havia sido super tranquilo. Um pequeno desconforto, mas nada mais.
Chegando no hospital, fui atendida por uma vaca na recepção. A recepção daquele hospital é um horror, um lixo. Me fez perguntas resmungando pela boca fechada. Perguntou se era aborígene (tá bem na cara que sou...) e qual minha opção religiosa (pensei na extrema unção - hehehe). Mandou eu esperar num canto e logo fui atendida.
A médica que me atendeu era bem normalzinha até. Falava muito rápido e baixinho, tive que fazer um esforço grande para entender o que ela estava me dizendo. Me apresentou uma estudante de medicina que iria "acompanhar" o exame. Logo de cara, foi dizendo que o procedimento que iria fazer era desconfortável. Disse para ela que estava tranquila, que já havia feito uma vez e sabia como era. Começou a falar dos possíveis diagnósticos e falou que o tratamento seria sim beeeeem desconfortável, mas daí cortou o assunto dizendo que mais tarde se falaria nisso. Achei super animador. Perguntou se eu tinha alguma pergunta. Disse que sim, se essas alterações sempre estavam relacionadas à HPV e por que em lugar nenhum havia aparecido que tenho isso ou não. Ela disse que sempre está relacionado e teria que investigar mais para saber se tenho o vírus. Ok, pensei que com o exame ela veria isso. Ledo engano.
Fui lá, botei o avental lindinho e disse que estava pronta. A médica e a estudante chegaram com o aparato e começaram os trabalhos. Quem começou foi a estudante, que inseriu o espéculo, com toda a vontade do mundo. A mulher parece que me atravessou no meio. Me senti empalada. De cara eu vi que ela me machucou, pois estava acompanhando todo o procedimento, entre gazes e chumaços de algodão percebi que comecei a sangrar antes de qualquer procedimento. A estudante ainda fez outro exame prevetivo e ficou perguntando para a médica como colocava o material na lâmina. Eu sei que os médicos para virarem médicos tem que praticar, mas por que eu?
Depois a doutora colocou a mão na massa, usando vários pincéizinhos e escovinhas. Cada um desses brinquedinhos fazia eu ver estrelas de tanta dor. Daí que ela começou o exame em si. Colocou ácido acético, ou vinagre, e daí queimou tudo que já estava machucado. Depois disso até que ajudou, pois eu só sentia a queimação. Depois de uns 15 minutos de fisgadas, cólicas e queimação, ela chegou à conclusão que teria que fazer biópsia. A essas horas, se ela quisesse fazer uma cirurgia sem anestesia eu já topava, pois tudo doía. Ela fez a biópsia colocando uma agulha de ponta bem grossa, pediu para eu tossir e pronto. Não senti nada disso, só vi um grãozinho do meu útero no vidrinho. Mais uma tossidinha, outro pedacinho. Um remedinho para parar de sangrar e tirar aquele troço horrível do espéculo. Doeu até para sair. Descendo da mesa de exame, vi tanto sangue, fiquei impressionada. Havia sangue na mesa, no chão, no avental. Surreal.
Eu nunca havia passado por uma sessão de horrores como essa por uma coisa tão simples quanto esse exame. Achei que esses 20 minutos foram duas horas.
No final, ela me disse que não pode me dizer nada até que venha o resultado da biópsia. Disse que não parece câncer (segunda vez que escuto isso esse ano - credo) e que tenho que esperar. Daqui a TRÊS semanas eu ligo para ela para ela me dizer o resultado. Antes de sair, me deu um potinho e disse para eu mijar dentro dele. Perguntei onde levar e ela me disse para falar com a mulher da recepção. Nããão!
Fui no banheiro, fiz pipi no potinho, botei num saco plástico com uma etiqueta com meu nome e fui falar com a vaca de novo. Perguntei onde deixar e ela me perguntou "o que é isso?". Eu disse "xixi" e "tô com vontade de atirar na tua cara", pensei. Resmungou algo "fim do corredor". Descobri que se deixa numa caixa, cheinha de envelope de xixis, e vai embora.
Fui para casa querendo nunca mais voltar naquele lugar. O pior é ter que esperar o resultado e ficar à mercê da doutora e sua aprendiz novamente. Espero que a aprendiz tenha dia de folga quando aparecer por lá de novo.
Quando cheguei na rua, lembrei que esqueci de perguntar sobre os cuidados pós biópsia. Nem isso ela me falou. Nada. Pesquisando depois, vi que leva até uma semana para cicatrizar e que nesse tempo deve se evitar sexo, o uso de tampões, natação e qualquer coisa que possa atrasar a cicatrização. Santa internet! E pior que esse final de semana fez 41 graus e eu aqui seca esturricada, só escutando os vizinhos na piscina. Humpf.
Agora é esperar três semanas. Se tiver que fazer tratamento, imagino que vou ter que entrar na fila de espera de novo. Por um lado é bom, se a médica achar que não é urgente, senão vou perder meu verão de 40 graus se recuperando de um procedimento que impede natação e outras coisas mais por 6 semanas!
Com tudo isso, hoje estou aqui, de pernas para o ar. Não quero limpar banheiro, não quero passar aspirador, não quero me esforçar. A casa está completamente em ordem, então eu vou é cuidar de mim e me recuperar do trauma. hehehe